Dia da Mãe: amor, língua e o direito de existir plenamente
O Dia da Mãe é, para muitos, um momento de celebração. Mas para outras mães, é também um dia que reflete desafios profundos — sociais, emocionais e estruturais — sobretudo quando a diferença faz parte da sua realidade.
Quando nasce uma criança surda numa família ouvinte, ou quando a própria mãe é surda, inicia-se muitas vezes um caminho exigente. Não por falta de amor, mas porque o mundo à volta ainda não está preparado. A sociedade, em grande parte, continua a não compreender plenamente a diversidade linguística. A mentalidade dominante, ainda centrada na norma ouvinte, cria barreiras invisíveis. E as respostas políticas continuam, muitas vezes, insuficientes.
Persistem ideias erradas — como a de que uma criança com uma língua diferente está em desvantagem inevitável, ou que há algo a “corrigir”. Essas visões ignoram uma realidade essencial: a diversidade linguística é parte da condição humana. Existem milhões de pessoas bilingues no mundo — em português, em línguas estrangeiras, e também em línguas gestuais.
A Língua Gestual Portuguesa é uma dessas línguas. É natural, completa e reconhecida na Constituição da República Portuguesa. Não é uma limitação — é uma possibilidade. É uma ponte para o desenvolvimento, para a identidade e para a participação plena na sociedade.
Quando o acesso a uma língua — oral ou gestual — não é garantido desde cedo, podem surgir consequências sérias: dificuldades no desenvolvimento cognitivo, emocional e social, sentimentos de isolamento e, em muitos casos, experiências de discriminação ou bullying. Estas realidades não são inevitáveis — resultam de falhas no apoio, na informação e nas políticas públicas.
De acordo com princípios defendidos pela World Federation of the Deaf e alinhados com a Convenção sobre os Direitos da Criança, todas as crianças — surdas ou ouvintes em contexto familiar surdo — devem ter acesso precoce a uma língua, como condição essencial para o seu desenvolvimento pleno.
Fala-se pouco das mães surdas. Muitas enfrentam julgamentos injustos, dúvidas sobre a sua capacidade parental e uma falta de apoio adequada. Vivem, por vezes, uma dupla pressão: a de serem mães e a de terem de provar constantemente o seu valor numa sociedade que ainda não reconhece plenamente a diferença linguística como algo legítimo.
Ser mãe, nestes contextos, é um ato de resistência. É aprender, adaptar, lutar e, acima de tudo, amar — um amor que se constrói na comunicação, seja ela feita por palavras ou por gestos.
Tal como já refletia Platão sobre a relação entre linguagem e pensamento, também aqui se revela uma verdade essencial: sem acesso a uma língua, não há plena liberdade de ser e de existir.
Neste Dia da Mãe, celebrar é também reconhecer. Reconhecer as mães que enfrentam desafios invisíveis. Reconhecer que ainda há um caminho a fazer — na sociedade, na política e nas mentalidades.
E afirmar, com clareza: todas as línguas importam. Todas as famílias merecem respeito. Todas as crianças têm direito a crescer com uma língua, uma identidade e um futuro.
Porque o amor de mãe não tem uma única forma.
Mas precisa, sempre, de uma língua para florescer.
Feliz Dia da Mãe.
Associação de Famílias e Amigos dos Surdos
O Dia da Mãe é, para muitos, um momento de celebração. Mas para outras mães, é também um dia que reflete desafios profundos — sociais, emocionais e estruturais — sobretudo quando a diferença faz parte da sua realidade.
Quando nasce uma criança surda numa família ouvinte, ou quando a própria mãe é surda, inicia-se muitas vezes um caminho exigente. Não por falta de amor, mas porque o mundo à volta ainda não está preparado. A sociedade, em grande parte, continua a não compreender plenamente a diversidade linguística. A mentalidade dominante, ainda centrada na norma ouvinte, cria barreiras invisíveis. E as respostas políticas continuam, muitas vezes, insuficientes.
Persistem ideias erradas — como a de que uma criança com uma língua diferente está em desvantagem inevitável, ou que há algo a “corrigir”. Essas visões ignoram uma realidade essencial: a diversidade linguística é parte da condição humana. Existem milhões de pessoas bilingues no mundo — em português, em línguas estrangeiras, e também em línguas gestuais.
A Língua Gestual Portuguesa é uma dessas línguas. É natural, completa e reconhecida na Constituição da República Portuguesa. Não é uma limitação — é uma possibilidade. É uma ponte para o desenvolvimento, para a identidade e para a participação plena na sociedade.
Quando o acesso a uma língua — oral ou gestual — não é garantido desde cedo, podem surgir consequências sérias: dificuldades no desenvolvimento cognitivo, emocional e social, sentimentos de isolamento e, em muitos casos, experiências de discriminação ou bullying. Estas realidades não são inevitáveis — resultam de falhas no apoio, na informação e nas políticas públicas.
De acordo com princípios defendidos pela World Federation of the Deaf e alinhados com a Convenção sobre os Direitos da Criança, todas as crianças — surdas ou ouvintes em contexto familiar surdo — devem ter acesso precoce a uma língua, como condição essencial para o seu desenvolvimento pleno.
Fala-se pouco das mães surdas. Muitas enfrentam julgamentos injustos, dúvidas sobre a sua capacidade parental e uma falta de apoio adequada. Vivem, por vezes, uma dupla pressão: a de serem mães e a de terem de provar constantemente o seu valor numa sociedade que ainda não reconhece plenamente a diferença linguística como algo legítimo.
Ser mãe, nestes contextos, é um ato de resistência. É aprender, adaptar, lutar e, acima de tudo, amar — um amor que se constrói na comunicação, seja ela feita por palavras ou por gestos.
Tal como já refletia Platão sobre a relação entre linguagem e pensamento, também aqui se revela uma verdade essencial: sem acesso a uma língua, não há plena liberdade de ser e de existir.
Neste Dia da Mãe, celebrar é também reconhecer. Reconhecer as mães que enfrentam desafios invisíveis. Reconhecer que ainda há um caminho a fazer — na sociedade, na política e nas mentalidades.
E afirmar, com clareza: todas as línguas importam. Todas as famílias merecem respeito. Todas as crianças têm direito a crescer com uma língua, uma identidade e um futuro.
Porque o amor de mãe não tem uma única forma.
Mas precisa, sempre, de uma língua para florescer.
Feliz Dia da Mãe.
Associação de Famílias e Amigos dos Surdos
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